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Beto: “Esta é a defesa da minha vida: proteger a família”

Liga Portugal | 26/03/2020
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Está na Turquia e impedido de viajar para Portugal. A Superliga turca foi dos últimos campeonatos a serem suspensos na Europa, decisão que “pecou por tardia”. Para Beto, guarda-redes do Göztepe, a melhor defesa da sua carreira é a que faz agora, ao proteger a família no momento que todos estamos a atravessar.

Com televisão portuguesa em casa e sempre atento às mais recentes notícias sobre o desrespeito pela quarentena e respetivo isolamento social, o antigo guardião de Leixões SC, FC Porto, Sporting CP e Sevilha condena a irresponsabilidade de algumas pessoas e deixa um apelo: “Portugueses, fiquem em casa, por favor.”

 

Como está a viver a situação do COVID-19? Como sente as pessoas na Turquia?

Ainda estou na Turquia, aliás, nós não podemos sair daqui. Não temos autorização para nos ausentarmos do país. Eu e a minha família já estamos a fazer o confinamento há duas semanas, que foi quando apareceu o primeiro caso em Istambul. A única coisa que me preocupava e à minha família era que a Liga continuasse por mais tempo mas, finalmente, suspenderam-na por tempo indeterminado.

Sente que a melhor decisão foi mesmo a suspensão do campeonato turco, à semelhança de outras ligas? Considera que essa decisão pecou por tardia? 

Exatamente, pecou por tardia. Na minha opinião, acho que estivemos expostos desnecessariamente durante duas semanas e numa delas tivemos que fazer uma viagem até Istambul, de avião, hospedados num hotel… Obviamente já estávamos preocupados e angustiados. Ainda para mais, sabendo nós que tínhamos de fazer uma viagem de avião e hospedar-nos num hotel, como deve calcular, a nossa preocupação multiplicou-se… Fizemos um jogo em Istambul, voltámos e tentámos lutar para que a Liga parasse na semana seguinte. Ainda tivemos de fazer um jogo em atraso, na terça-feira seguinte, e foi então que juntámos alguns capitães. Tentámos consciencializar e sensibilizar um pouco a Federação para o alto risco que os profissionais estavam a correr e a Federação acabou por tomar a decisão acertada, tardia mas acertada, de suspender a Liga.

O que tem feito ao nível de cuidados, recomendações?

As recomendações todas que a Organização Mundial de Saúde tem indicado, temos tentado seguir à risca. Desde que a Liga parou que não saímos de casa. Felizmente temos jardim, temos um ginásio em casa e assim posso continuar a fazer o meu trabalho físico, posso levar a minha filha um bocadinho ao jardim para apanhar sol, para sair um bocadinho à rua, dentro de casa… Mas sair, não saímos. Saio eu quando tenho de ir às compras para a casa, com os devidos e máximos cuidados, mas mais do que isso, nós não saímos. Acho que esse vai ser o grande segredo para que isto não se desenvolva e não se expanda ainda mais. 

O que o Göztepe e o treinador lhe pediram para fazer durante esta interrupção/paragem?

O pedido do clube e o pedido da equipa técnica foi para que cumpríssemos os planos individuais e dentro das condições que cada um tem em sua casa, tentar fazê-lo. Relativamente à parte do confinamento, não é uma obrigação imposta pelo Governo, mas sim uma obrigação do nosso clube, um pedido do nosso clube, para ninguém se ausentar da cidade e para que se saia o menos possível de casa. Obviamente que eu controlo a minha vida, controlo aquilo que eu faço e, naturalmente, acredito que os meus colegas estejam a fazer o mesmo. Nós também temos um grupo no WhatsApp e tenho sensibilizado diariamente os meus colegas. Sou um bocado chato nisso, mas acho que nesta fase não me importo de ser chato.

Que conselhos se dão nesta altura a um adepto de futebol, num momento em que a saúde (pública) é a prioridade?

Independentemente da saudade que os adeptos tenham, não têm mais saudades do que os jogadores. Nós sim, temos saudades da nossa rotina, do nosso dia-a-dia, de ir para o treino, do balneário, das palestras, dos estágios, do jogo… Mas, mais importante do que isso, é a saúde que, neste momento, tem de ser primordial. Aquilo que eu posso pedir aos adeptos de futebol é que tenham paciência porque há valores muito mais importantes neste momento do que o futebol e a paixão pelo futebol. A saúde de cada um, a saúde dos seus familiares, a saúde de todos, acho que isso é o mais importante neste momento. Eu tenho televisão portuguesa aqui, tenho visto diariamente as notícias e faço desde já um apelo: devido às detenções que têm sido feitas, parem, por favor (!), fiquem realmente em casa e saiam o menos possível, o estritamente necessário. Há pessoas que sim, têm de sair, que se estão a expor, porque têm de trabalhar. Agora, o resto das pessoas, fiquem em casa, por favor, mantenham-se saudáveis e protejam-se a si e aos seus mais queridos. 

Como tem sido a sua rotina diária e que sugestões deixa para os tempos livres?

(risos) Para quem tem filhos, e ainda para mais, a minha pequenina exige muita atenção… Agora sim, as pessoas têm de dar valor ao tempo que às vezes não têm para a família. Em vez de se angustiarem pensando “o que é que eu faço com o meu filho” ou “o que é que eu faço com a minha filha”, vamos valorizar! Eu, pessoalmente, passo muito tempo fora e também com a seleção, são muitos estágios, são muitos dias que estamos fora, portanto, há que extrair algo positivo disto. Se há algo positivo no confinamento, é o tempo que nós podemos passar com a família e aproveitá-lo ao máximo: brincar, fazer atividades em casa, dar asas à imaginação, há muitas coisas que se podem encontrar na Internet. Valorizem o tempo, o tempo que não temos e que muitas vezes nos queixamos que não temos. Seja para descansar, seja para a família. Este confinamento e esta situação dão-nos essa possibilidade. 

Qual é a defesa da sua vida e porquê?

A grande defesa da minha vida está a ser agora, porque me sinto no papel e na obrigação de defender e proteger a minha família. Na minha vida e na minha carreira, a melhor defesa ou o jogo mais difícil está a ser agora: é proteger a minha família e evitar que aconteça alguma coisa. Se conseguirmos ultrapassar isto, esta será seguramente a defesa da minha vida.