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Tyler Boyd, o neozelandês que largou tudo para jogar futebol em Portugal

01/07/2018

Liga-Te: entrevista ao jogador de futebol em Portugal que está mais longe de casa

No universo dos cerca de 1350 jogadores inscritos nas competições profissionais de futebol durante a temporada 2017-2018, houve um que bem pode ostentar o título daquele que esteve mais longe de casa. Trata-se do neozelandês Tyler Boyd, natural de Tauranga, a maior cidade de Bay of Plenty, região de praias parasidíacas a quase 35 horas de viagem de Portugal!

Aos 23 anos, o jovem internacional pela Nova Zelândia alinhou esta época no CD Tondela, a título de empréstimo do Vitória SC, clube que o descobriu, há cerca de três anos, no principal campeonato australiano, onde integrava o plantel do Wellington Phoenix.

Se recorressemos à lei das probabilidades, Tyler Boyd, amante do desporto, estaria hoje a brilhar numa qualquer equipa de futebol americano, de beisebol ou de râguebi. Senão vejamos: o pai, Ric, é neozelandês. A mãe, Sherry, é norte-americana. Tyler, o filho, foi nascer à Nova Zelândia por vontade dos pais que, na altura, moravam em Santa Barbara, na California, onde viveu até aos 10 anos de idade, antes de se mudar em definitivo para Tauranga, a cidade-natal.

Tyler Boyd cresceu, assim, num ambiente onde o futebol não é rei, nem sequer princípe, mas a verdade é que o gosto por esta modalidade e a vocação parecem estar-lhe no sangue. “Eu adoro todos os desportos, mas desde criança sempre gostei mais de futebol. Bastava que houvesse uma bola, ou algo parecido, que eu andava sempre aos chutos. Tentando fazê-lo cada vez melhor. Gosto de râguebi, gosto de basquetebol, gosto dos outros desportos, mas nada se compara com o futebol. Tentei outros desportos, sou bastante bom na maioria, mas o futebol é a minha paixão, o meu amor. Sempre adorei futebol desde bebé”.

A declaração de amor é feita logo no início da entrevista e não deixa margem para dúvidas. Tyler deixou tudo para trás em busca do sonho de se tornar jogador profissional de futebol e de competir na Europa ao mais alto nível. Nada o demoveu, nem mesmo as praias parasidíacas de Bay of Plenty e da California, onde regressa sempre que pode para rever os dois ramos da família.

Porém, nestas coisas nada acontece por acaso. Tyler reconhece ter herdado do pai a paixão pelo futebol. “Ele é um grande atleta a todos os níveis, joga golfe, râguebi… É bom em tudo aquilo que faz. Acho que o amor dele pelo desporto se transformou no meu amor por desporto, porque somos muito parecidos”.

Desvendado o mistério, o jovem jogador do Tondela recorda as horas passadas a treinar sozinho, ainda miúdo, sempre que tinha tempo livre. “Se o meu pai não estivesse a trabalhar, íamos treinar juntos”.

“O meu pai sempre me pôs a jogar em equipas mais velhas. Se eu tivesse 8 anos, estaria a jogar nos sub-10, ou sub-11. Por isso, fui sempre motivado para ser cada vez melhor. O meu pai estava sempre a incentivar-me para melhorar”, revela.

Houve, porém, uma outra pessoa que foi decisiva para a sua carreira e que Tyler Boyd faz questão de recordar. Trata-se de Declan Hedge, diretor técnico da Ole Football Academy e reconhecido como um dos grandes responsáveis pelo sucesso no desenvolvimento dos futebolistas neozelandeses.

“Não consigo agradecer-lhe o suficiente pelo que fez por mim. Ele criou a primeira academia na Nova Zelândia, onde treinamos a tempo inteiro. Por isso, desde os 14 anos de idade treinava duas vezes por dia, todos os dias, fazendo os meus trabalhos escolares a meio. Isso permitiu-me maximizar o meu crescimento e tornar-me um jogador melhor”.

Na opinião de Tyler Boyd, trata-se de “um ótimo sistema, que permite ao jogador tornar-se melhor”, valorizando, simultaneamente, “a escola e a educação, que também são importantes. Isso permite que vás para a universidade”.

O trabalho com Declan Hedge durou sete anos. “Ele era espantoso. Ensinou-me tanto…”, lembra. Mais tarde, as qualidades do jovem Tyler Boyd despertaram a atenção do Wellington Phoenix, “único clube profissional da Nova Zelândia”, que chamou 12 jogadores à experiência, prometendo um contrato profissional para os dois melhores. “Eu fui o primeiro dessa academia a ter um contrato profissional”, recorda, depois de ter participado numa digressão de pré-temporada na Índia, que nunca mais esqueceu.

“Foi um desafio difícil. Estava muito calor, muita humidade. E nós não fomos aos melhores sítios da Índia. Fomos a alguns dos mais pobres. Muitos jogadores ficaram doentes por causa da água. Mas conseguir estar bem naquelas condições e jogar bem foi imenso para mim e muito importante para a minha carreira profissional. Nessa altura estava ainda na academia de Wellington, na luta por um contrato profissional”.

Mais tarde, já como jogador da equipa principal do Wellington Phoenix, Tyler Boyd despertou a atenção de Vlado Bozinoski, antigo internacional australiano que alinhou no Sporting CP, Beira-Mar e FC Paços de Ferreira, entre outros, e que se tornaria seu agente. “Ele viu-me jogar contra um dos jogadores dele, o Adama Traoré, que jogou no Vitória de Guimarães, mas antes tinha jogado no Melbourne. Ele viu-me, gostou de mim, começamos a construir uma relação e acabou por trazer-me para o Vitória”.

Neste momento, Vlado Bozinoski, “é como um segundo pai, ou como um tio” para o jogador. “Tem sido espantoso para mim. Ensinou-me tanto acerca do jogo. Ele é um génio no que se refere à tática. Foi ele quem tornou possível a minha vinda para Portugal, que é um país maravilhoso”.

A relação de amizade entre Tyler Boyd e o agente foi crescendo, mas só quando o jogador chegou a Portugal, onde reside Bozinoski, os dois se conheceram pessoalmente. “Foi a primeira vez que o conheci em pessoa. Só tinhamos falado por Skype. Construímos uma amizade durante dois anos, mas foi a primeira vez que o conheci. Ele e a mulher, a Andreia, têm sido tão agradáveis para mim. Eles são a minha família cá. Têm sido, também, uma grande experiência”.

Tyler Boyd veio sozinho para Portugal, percorrendo os quase 20 mil quilómetros que separam o país da Nova Zelândia. A vida por sua conta e risco não é, porém, uma novidade para o jovem jogador. “Tenho morado sozinho desde os 17 anos”. Mesmo assim, não disfarça as saudades da família e dos amigos. “Portugal é um país bonito, com um excelente clima. É, sem dúvida, da minha família, da minha mãe e do meu pai que eu sinto falta”, confessa.

As saudades são agravadas pelas dificuldades impostas por uma diferença horária de 12 horas. “Quando é de manhã aqui, é noite lá. Por isso, durante o dia não consigo falar com eles. Estão todos a dormir”.

“Estou ansioso por voltar a casa e comer a comida da minha mãe e da minha avó”, remata o jovem jogador, que por esta altura, dividindo as férias entre a Nova Zelândia e a California, terá já matado saudades dos pratos preferidos. Bom apetite, Tyler Boyd!

“Percebo de onde vem a emoção do Haka”

Tyler Boyd é da terra dos All Blacks, a seleção maravilha que se tornou um fenómeno de popularidade mundial, não só pela sua quase imbatibilidade no râguebi, mas também pelo Haka com que, desde 1888, dá as boas vindas e, simultaneamente, desafia as equipas adversárias.

Descrita como uma expressão da paixão, vigor e identidade da raça, esta dança tribal do povo Maori é motivo de orgulho para Tyler Boyd. “Quando vejo os All Blacks e as equipas de râguebi a fazer o Haka, sinto-me orgulhoso e percebo de onde vem a emoção antes dos jogos”.

Tyler sabe dançar o Haka, mas confessa que não o faz. “Na minha escola tivemos que aprender um Haka diferente [ndr: os All Blacks praticam o Ka Mate, uma das várias versões existentes], sei até algumas palavras em Maori, a língua nativa, que já não é falada por muita gente, mas não o faço”.

O jovem jogador sublinha, porém, o sentimento que nutre pelos seus dois países de origem. “Tenho orgulho no meu lado americano, da parte da minha mãe, e do lado neozelandês do meu pai. Os dois países têm estilos de vida muito bons, gente muito boa, e eu tenho família em ambos. Portanto, amo os dois”.

A recusa em fazer o Haka revela, ao mesmo tempo, um outro lado da personalidade de Tyler Boyd, enquanto futebolista. “Tento não ser demasiado supersticioso. Acredito em Deus, rezo antes dos jogos. Rezo por proteção. Sobretudo, agradeço-Lhe por poder jogar este jogo bonito. De resto, a minha confiança vem da preparação ao longo da semana, de muito treino. Não acho que a sorte, ou que calçar as chuteiras de uma certa maneira, tenha alguma influência. Gosto de trabalhar muito, preparar-me para o jogo ao longo da semana. Depois, limito-me a entrar em campo, a jogar e a divertir-me”.

A estreia frente a Del Piero

A estreia de Tyler Boyd no futebol profissional foi de sonho e o jogador não mais a esquecerá. Tinha acabado de assinar contrato pelo Wellington Phoenix, única equipa da Nova Zelândia que disputa o principal campeonato da Austrália, e ia defrontar o Sydney FC, onde a “estrela” se chamava Alessandro Del Piero, o histórico internacional italiano.

“Lembro-me de como estava nervoso. Tinha pingos de suor na minha pele. Sentia tanto orgulho em mim e no facto de o poder fazer pela minha família, por todos aqueles que acreditaram em mim e, também, pelos que disseram que eu não conseguiria. Estava tão feliz e, ao mesmo tempo, tão nervoso”, recorda.

“A atmosfera era fantástica. Era um bom estádio e ver o Del Piero jogar foi espantoso. Ele já estava velho, mas podias ver nele a qualidade, a inteligência… E o toque de bola era lindo”.

No final do jogo, Tyler Boyd não foi, no entanto, capaz de fazer o que tinha vontade. “Não falei com o Del Piero. E não lhe pedi a camisola. Gostava de o ter feito, mas era jovem e estava nervoso. Estava com medo”.

“Sonho jogar a Liga dos Campeões”

Tyler Boyd alimenta vários sonhos. Depois de uma temporada de empréstimo ao CD Tondela, que classifica como “um grande ano de aprendizagem”, o objetivo a curto prazo é garantir um lugar no plantel do Vitória SC para época 2018-2019. “Adoro o clube. Adoro os adeptos. É um grande clube de Portugal”, confessa o futebolista, que pretende jogar na equipa de Guimarães “de forma consistente”.

“Outro dos objetivos da minha carreira é jogar, um dia, na Liga dos Campeões. Desejo isso desde criança. Seja em Portugal ou noutro país”, revela.

Por  fim, Tyler acredita que poderá ainda defrontar três das grandes “estrelas” do futebol mundial. “Ronaldo, Messi, Neymar… Jogar contra estes grandes jogadores seria um sonho para mim. E acredito que um dia será possível. Tenho a certeza”.

Lançado por Sérgio Conceição frente ao… FC Porto

O atual treinador campeão nacional, Sérgio Conceição, foi o responsável pela estreia de Tyler Boyd na Liga NOS. Aconteceu na época 2015-2016, curiosamente em jogo frente ao FC Porto, no Estádio D. Afonso Henriques, que a equipa do então técnico do Vitória SC venceu por 1-0.

Tyler Boyd foi titular, sendo substituído aos 63 minutos por Thiband Phete. Na jornada seguinte voltaria a ser chamado por Sérgio Conceição, na deslocação ao terreno d’Os Belenenses, entrando para o lugar de Licá, aos 73 minutos, numa partida que terminou empatada (3-3).

Foram os dois únicos jogos feitos pela equipa principal do Vitória SC, tendo alinhado na equipa B dos vimaranenses em 73 partidas, com um total de 13 golos marcados.

Na época 2017-2018, Tyler Boyd rumou ao CD Tondela, a título de empréstimo. Sob o comando técnico de Pepa, o jovem neozelandês cumpriu mais de 1500 minutos de jogo, apontando cinco golos em 29 partidas. Um deles, na receção ao D. Aves, foi um dos grandes momentos da 31ª jornada da Liga NOS, com um pontapé cruzado e em arco indefensável, após tirar da frente um defesa adversário com uma finta de corpo.

Naturalidade: Baía da Abundância

Quando o explorador e navegador James Cook, da Marinha Real Britânica, chegou à terra de Tyler Boyd, em 1769, encontrou uma grande baía “repleta de plantações e aldeias”. A região, numa das ilhas da Nova Zelândia, foi batizada como Bay of Plenty (em português, “Baía de Abundância”) e é hoje famosa pelos kiwis suculentos, praias lindíssimas e excelentes para o surf, vinhos, marisco e por um vulcão ativo que oferece paisagens inesquecíveis.

A cidade natal do jovem jogador é Tauranga. Com uma população de pouco mais de 100 mil habitantes, é um centro turístico, que convida a aventuras marinhas como a vela, a pesca e a observação de golfinhos.

Do outro lado do Pacífico, a 12 horas de avião, está Santa Barbara, na California (Estados Unidos), onde Tyler Boyd cresceu até aos 10 anos de idade.

Refúgio de estrelas do cinema, a duas horas de viagem de Los Angeles, é também ela uma cidade de férias luxuosas, bons vinhos, belas praias e… “raparigas bonitas”. Palavra de Tyler Boyd!

 

ENTREVISTA PUBLICADA NA EDIÇÃO Nº 4 DA REVISTA "LIGA-TE" - JUNHO 2018